domingo, 28 de março de 2010

'Mulher Maravilha'


Queria conseguir lembrar de todos os carinhos que recebi dela desde que nasci, nunca fui muito boa nisso, minhas lembranças começam quando já tinha uns 5 anos e ainda assim as vezes são tão vagas!
Posso sentir a sensação que tinha quando acordava e procurava por ela na casa inteira e não encontrava, meu coração acelerava, meus olhos enchiam d’agua, e quando olhava no espelho estava lá a marca de batom na bochecha que ela me deixava antes de viajar, pra eu ter certeza que ela tinha despedido mesmo enquanto eu dormia.
Das cartinhas que eu fazia antes dessas viagens e que pedia pra deixar sempre na bolsa porque assim achava que nada de ruim aconteceria, e quando ela voltava eu conferia se a carta realmente estava lá e agradecia por ela ter cuidado direitinho dela por mim.
Ela nunca foi muito boa pra arrumar meu cabelo, o máximo que conseguia era um rabo de cavalo e esticava tanto que eu ficava quase uma japonesa, e por mais que doesse adorava quando ela desembaraçava meus cachos depois do banho.
Nas noites frias enquanto ela fazia minha sopa preferida, eu ficava colocando macarrão na chama, não sei por que, mas gostava de vê-lo encolhendo, e ela repetia todas as vezes que as crianças que brincam com isso fazem xixi na cama e eu sempre achava que naquela noite não escaparia e quando acordasse estaria toda molhada, era um alívio acordar sequinha.
Quanta paciência ela tinha pra juntar todas as minhas bonecas que estavam meio estragadas e levar para o Pronto Socorro da Boneca, elas voltavam novinhas com comprovante de internação e tudo.
Eu nunca gostei muito do escuro, e quando por conta dele não conseguia dormir, ela deixava a luz acesa até que eu pegasse no sono, mas se no meio da noite acordasse assustada era só chamar que no dia seguinte acordava na cama dela.
Não me esqueço do dia em que ela me chamou pra uma conversa, disse que eu precisava saber que – Papai Noel não existe! Como assim Papai Noel não existe? E os presentes, o velhinho de roupa vermelha e barba branca? Na verdade Ela também era meu Papai Noel.
Assumo que fui mimada, do tipo que nunca levou umas boas palmadas, no máximo um castigo no dia que joguei detergente em todas as suas plantas, ou quando arranquei todos os adesivos da agenda que minha irmã tinha acabado de ganhar, fiquei um tempão com eles colados na minha testa (esse foi o castigo mais criativo que já tive).
Até minha professora ela já foi, a parte ruim é que quando ia dá um exemplo sobrava sempre pra mim, todo mundo já sabia das minhas manias, micos, mas até nisso ela era ótima.
Ela soprava meus machucados, secava as minhas lágrimas depois de um belo tombo e repetia ‘eu te avisei pra você não fazer isso’, é incrível, ela sempre sabia quando ia dá errado.
Ela é o meu Anjo, sei que terei sempre abrigo debaixo das suas asas!
E Sei que assim como quando eu era criança é só gritar Mããããeeeeeee, que o meu “socorro” virá!
E apesar das muitas qualidades que tenho e de todos os meus esforços, jamais serei metade do que Ela é!

domingo, 21 de março de 2010

'Sob a lona'


Vivo num circo, o mais colorido que já vi.
Todos os dias há um espetáculo diferente, e sempre sou a estrela do show, não importa qual seja.
Geralmente não há ensaios, já que nunca consigo cumprir tudo a risca, às vezes prefiro fazê-lo no improviso.
Os malabarismos não me esforcei a aprender, é quase instinto.
De quantos leões, tigres, ursos que domei as contas nem faço mais.
Dos tombos, arranhões, hematomas e cicatrizes, prefiro não lembrar das dores que os fizeram, mas das histórias que possuem.
Não espero aplausos da platéia, porque esses não significam alegria e euforia no camarim, como me sinto nos bastidores, na maioria das vezes não é o que levo para o palco.
E apesar de viver aqui...
Prefiro a firmeza do chão, do que alturas na corda bamba.
Prefiro os sorrisos espontâneos, aos arrancados com ‘palhaçadas’.
Prefiro silêncio no final, do que gritos e brados por questão de costume.
Prefiro a perda de tempo em frente ao espelho retirando a maquiagem, do que passar o resto do dia ‘mascarada’.
Prefiro participar desse monólogo, a ser protagonista de um show que não é meu.
Prefiro dançar modestamente sozinha, do que fazer um espetáculo de dança com um par que pise no meu pé.
Bom, agora prefiro ir andando, já posso ouvir daqui... “Senhoras e senhores, respeitável público...”.
Ah, mas antes de ir, já ia me esquecendo, a entrada é gratuita, e apesar disso, eu sou a única que ainda sai ganhando ao ‘final’ desse Show!

terça-feira, 2 de março de 2010

'Debaixo D'agua'

Chove tanto lá fora...
Mas a tempestade mesmo é aqui dentro, dentro de mim!
Entre raios e trovões, tento chegar ao abrigo apenas molhada e no máximo com um resfriado no dia seguinte.
Sinto-me alvo.
Sinto-me caçada.
Sinto-me cansada.
Chove forte sob meu corpo, meu rosto, meu mundo, meu travesseiro está úmido e pesado.
Em algum lugar há de se ter um abrigo, nem que seja temporário, só pra me secar, tomar um leite quente e sentir ainda que rápido um abraço forte e aconchegante, só pra me recompor, eu preciso encarar o resto do caminho ele ainda é longo e a chuva não vai parar tão cedo, preciso me apressar, o sol estar por chegar e não quero recebê-lo ‘desmontada’.
Se não encontrar abrigo, seco-me com o vento.
Se não tiver um leite quente, aqueço-me com o meu calor.
Se não receber um abraço, abraço-me.
E se o sol não chegar, eu faço questão de brilhar sozinha.